quarta-feira, abril 14, 2010

O Paraíso Comunista, Aqui















“In communist society, where nobody has one exclusive sphere of activity but each can become accomplished in any branch he wishes, society regulates the general production and thus makes it possible for me to do one thing today and another tomorrow, to hunt in the morning, fish in the afternoon, rear cattle in the evening, criticise after dinner, just as I have a mind, without ever becoming hunter, fisherman, herdsman or critic.”

Karl Marx, German Ideology (1845)

Na teoria marxista o Comunismo é definido como a obtenção de um sistema social em que Necessidade governa. É claro que essa Necessidade, como tudo em política, depende do sujeito a que se refere e da finalidade a que se destina, e essa distinção corresponde, em traços genéricos às grandes distinções do Socialismo.

No Socialismo Utópico (a grande finalidade beatífica da estrutura marxista) a Necessidade refere-se à capacidade de gerar autonomia da coerção, o desígnio descrito por Marx pela autosuficiência criada pela abundância. Não tendo abandonado os fortes traços anarquizantes e individualistas do pensamento liberal, o Paraíso Terreno do Marxismo não corresponderia a uma afirmação de um pensamento único ou a eliminação da discórdia (como p.ex. pretendia Rousseau), mas a criação de uma entidade que permitiria que a discórdia já não fosse importante em termos políticos, dado que o método de “administração das coisas” criaria um governo objectivo. Em suma, não é que todos pensem da mesma maneira, é que a abundância e a técnica trariam ao Homem um “jardim de delícias”, que a própria natureza do nosso mundo veio a desmentir, e que tornariam as discussões um passatempo.

É claro que este objectivismo ridículo (a pretensão de um conhecimento desumanizado e de onde é retirado o factor observação), aliado a uma falsa concepção de Natureza (a crença de que o Objectivismo poderia eliminar a sobreposição dos homens), esbarram numa concepção esvaziante de Humanidade. A libertação do Homem face ao seu semelhante é feita no sentido permitir ao oprimido meios para não depender do opressor em termos materiais, mas esquece (por acreditar numa concepção rousseauniana de Natureza) que depois de removidas todas essas camadas opressivas que constituem as hierarquias de valor, não existe possibilidade de aceitar ou rejeitar e toda a opressão é bem-vinda ou rejeitada com base numa impulsividade animalesca. O próprio acto de libertação isola o Homem e transforma-o no ser vazio que é dotado de sentido apenas pela Força.

Esta foi a grande arma que o Socialismo Real utilizou, submetendo o sacrifício do presente a uma miragem mentirosa e impossível, submetendo a Necessidade das pessoas à do Estado, no intuito de que estes, num presumível futuro, pudessem usufruir de uma esfera absoluta de liberdade privada, submetendo-se absolutamente à sociedade.
Esta é precisamente a formula com que a sociedade actual, legítima herdeira dos socialismo e do marxismo nos brindam e daí provém, precisamente, as suas incongruências.

O ataque à Igreja a que assistimos não é um evento esparso ou obra de meia-dúzia de fanáticos que são contra a liberdade de expressão. É a própria visão desse paraíso comunista, prosseguido por outros meios, os meios liberais, que impele a perseguição a todo o Absoluto. A finalidade de libertação individual, um Estado absoluto e independente de concepções de Bem que consagra total liberdade privada, é uma marca do pensamento liberal de Locke. O autor percebeu na sua formulação que este sonho não seria compatível senão com visões protestantes, afirmando a Tolerância (a virtude suprema da comunidade política) como incompatível com qualquer perspectiva não-subjectiva.

Por outro lado, o Progressismo vigente encarregou-se de fazer coincidir a Necessidade do Estado com a individual, através da construcção de mitos como a incapacidade económica das sociedades baseadas em perspectivas transcendentes e em concepções de Bem, a ideia ridícula de que na presente sociedade moderna existe um espaço maior de liberdade do que em qualquer altura da História.

Se perguntarmos na rua a qualquer um dos nossos compatriotas desta libérrima terra, garanto que serão poucos os que não compartilham do sonho liberal-comunista de que cada um deve fazer a vida que lhe apetece, independentemente dos laços naturais que possuam nesta terra. E desses, a esmagadora maioria terá por essencial a mudança de mentalidades (a remoção dos absolutos) como prioridade para atingir esse cume da liberdade e essa sociedade livre de discriminação, sem sequer aperceber os constrangimentos à liberdade e a defesa implícita de um posicionamento ideológico que tal acarreta.

E não vai parar...

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quinta-feira, outubro 22, 2009

O Mais Santo dos Santos


















As declarações de Saramago são uma das últimas páginas da história do marxismo. O Cristianismo é mau, porque na história da relação entre o Homem e Deus nem todos foram santos. O problema é sempre o mesmo. A mesquinhez de Deus vem de não ter distribuído democrática e igualitariamente a santidade, por nesta Terra não pairarem anjos, mas homens, por a história da relação com Deus estar limitada à falibilidade da compreensão humana.


O marxismo deu resposta a tudo isto. No mundo marxista todos são santos, porque não dispõem da capacidade de escolher o seu destino. No mundo marxista todos os que partilham da visão divina são santos, não por se comportarem em perfeita moralidade, mas porque as próprias finalidades humanas santificam toda e qualquer acção (o bombista comunista ou o ditador são o perfeito caso de santidade). No marxismo o Homem Novo é santo por partilhar a linguagem de Deus, a ciência positivista, que não lhe dá a possibilidade de errar.


A revolta de Saramago contra Deus é a revolta contra a imperfeição, contra a Criação. É a verdadeira revolta de um Homem Santo. De Deus aceita tudo, até as próprias categorias com que O ataca. Critica Deus por permitir o parricídio e o incesto, mas silencia o facto que a moralidade de onde obtém a repulsa máxima por essas práticas vem dessa mesma visão do Divino (escolhendo como crimes repugnantes aqueles que representam o máximo da censurabilidade social judaico-cristã). O problema de Deus não é o Princípio, mas a criação de um mundo imperfeito que Saramago e os seus comparsas se destinaram a aperfeiçoar, através de todo o tipo de crimes santificados pela sua identificação com a sua mais perfeita percepção do Divino (as leis imutáveis do materialismo e a sua relação com o último estádio histórico da humanidade).
É mais santo que o Santo Deus.


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terça-feira, setembro 01, 2009

Conservadorismo de Estado Neutro?

No seguimento de uma interessante discussão entre o Afonso e o Samuel surgiu da parte deste último a ideia de que existe uma possibilidade de separação entre a religião e a política e de que esta é uma posição liberal-conservadora.
Já aqui escrevi largamente sobre estes três erros, a propósito de alguns escritos do Rui A. e não pretendia chover nesse assunto, mas agora que se procura o Novo Rumo, parece-me ser indispensável que não se recaia em falsos lugares-comuns e confusões que aceitam as dicotomias intelectuais perpetuadoras da hegemonia esquerdista.

Primeiro que tudo, a total impossibilidade de separação entre as esferas política e religiosa ou metafísica, é algo de perfeitamente evidente e talvez uma das poucas constantes observáveis para alguém que conheça algo sobre a Humanidade. Ao contrário do que supõe o Samuel, ao liberalismo nada pode ser imputado no sentido de separação da esfera política e religiosa. Todas as grandes revoluções e golpes liberais foram revoluções metafísicas, a imposição de perspectivas protestantes ou maçónicas ao todo da sociedade que constitui a construção política. A própria ideia de que a comunidade política não se deve submeter a uma concepção de Bem (que o Samuel parece aceitar como axioma, vindo sabe-se lá de onde) é uma ideia política luterana e que seria impossível em qualquer contexto religioso não-protestante. A própria virtude da Tolerância que os liberais transformaram em religião de Estado é um subproduto dessa autonomização do político face ao Bem e da identificação da norma política com o Bem. Sobre isso não parece haver muitas dúvidas, caindo assim por terra a afirmação de que o liberalismo é uma ideia independente da religião. Todos os conceitos políticos liberais são reflexos protestantes, mesmo que apresentados como dogmas ou axiomas ideológicos ou realidades inelutáveis do nosso tempo.

Em segundo, aceitar a independência da esfera política em relação às posições metafísicas torna qualquer apelo àquilo que é justo uma afirmação jurídica e não uma afirmação de “dever ser”. Isto significa que se cria uma total impossibilidade de discutir os princípios normativos e que a lei se torna inamovível. Esta fórmula positivista é um dos grandes legados do esquerdismo de ontem e hoje e cria, quando não o Estado Omnipotente, um Estado descrito por Kafka n’O Processo, totalmente incompreensível, por ser um reflexo de vontades que não são articuláveis com princípios ou verdade. A inocência ou culpa, a razão ou o erro, passam a ser determinadas pelo interesse do Estado ou dos que o tutelam e não pela verdade (a independência das partes de que falava Platão) que deve guiar a conduta humana.
A obtenção desse Estado em que não existe Justiça é o sonho soviético e dos pós-modernos, o que, diga-se, é fraca inspiração para qualquer rumo.

Sobre a terceira questão é preciso dizer ainda menos. Quem alega a independência da política face ao fenómeno religioso, como legado liberal, tem de demonstrar de que forma esta é compatível com a tradição conservadora-liberal (presumindo que a mesma existe, o que não é de todo evidente). O mais interessante de tudo isto é que se fizermos uma análise aos grandes pensadores do conservadorismo britânico (Burke, Disraeli, Salisbury) até à II Guerra, nada encontramos neles que afirme algo semelhante ao que é alegado pelo Samuel. Afirmar que se é tradicionalista “anglo-saxónico” e que se prefere um Estado laico é o mesmo que um comunista que adora a economia de mercado. Haveria alguma possibilidade de haver conservadorismo britânico num Estado Laico?
Essa é que não passa mesmo pela cabeça de ninguém…

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quarta-feira, abril 22, 2009

Deuses e Demónios do Populismo
















Uma das maiores demonstrações de impotência da Esquerda é a forma como vê os seus adversários. O “fáchismo” que descrevem nos seus oponentes é uma visão infantil do que foi o Fascismo na realidade, com toda a sua moral popular, estatista, restruturadora, centralizadora. Para a Esquerda, o “fáchista” é aquele que defende um conjunto de normas que não vêm da soberania popular, que não se submete ao papel instrumental da racionalidade como forma de elevar a Humanidade ao papel de realidade transcendente, que rejeita que o objectivo da vida humana seja a criação de uma sociedade em que se cumpre a panaceia do indivíduo (em que este ultrapassa a escassez e vive como Deus no seu universo particular). É evidente que os fascistas não partilhavam esse credo, mas a infantilidade mental que preside a esta dicotomia é apenas um reflexo de visões simples do mundo que reflectem a forma populista da esquerda de contemporânea.
A forma como Hitler é descrito como um inimigo da razão esclarecida (um contra-iluminista, portanto), um mero caso clínico de loucura ou um defensor do preconceito social populista (que a Esquerda veio destruir) é apenas uma forma de varrer para baixo do tapete os problemas levantados pelo paradigma moderno de que Hitler foi consequência lógica.
Afirmar que o problema de Hitler se encontra no seu desprezo pela Razão é apenas o primeiro acto da paródia. É verdade que Hitler foi um crítico da razão iluminista enquanto forma de ordenar a comunidade política. Mas também o foram Rousseau, Nietzsche ou Sartre. Não se consegue vislumbrar de que forma é que o anti-racionalismo de Nietzsche, que se encontra tão em voga nesta época pós-moderna, pode ser a causa de uma mal tão grande e de tantas bençãos (Foucault, Deleuze, etc.). E quem mais do que Hitler, transformou as ciências numa forma de religiosidade política, forçando nas descrições científicas as distinções que a necessidade política forçava? O segundo acto está montado. A diferença entre o mau e os bons está na forma como os segundos fazem uso dessa racionalidade. Os maus matam pela raça, os bons pela classe social. Sartre, santificado na Europa Ocidental, afirmava o seu pacifismo enquanto defendia os campos de concentração onde se empilhavam inimigos do povo. Estaline, o maior assassino da História, era um santo que fazia o mundo adequar-se ao sonho de Marx. A diferença entre o populismo de uns (do povo, com toda a fúria socialista) e o que é dirigido a outros (a pequena burguesia, com todo o seu ódio racial) é, para o Esquerdista, toda a diferença do mundo. Mas qual é a diferença real, ou o critério para avaliar a diferença entre os preconceitos de Robespierre ou Marx, a necessidade do Terror e da destruição física e social da burguesia ou da nobreza e ou de um outro qualquer povo?
É curioso que num mundo obcecado com os campos de concentração, a abertura ao Leste tenha vindo com a total incorporação da máquina estatal comunista. Sem culpados, sem crimes, sem dias da memória histórica...
Estão nos a preparar para o quê?

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sexta-feira, fevereiro 13, 2009

Uma Questão de Prioridades











O incompreensível Cristianismo da Conferência Episcopal não cessa de me surpreender. Absorve-se com a questão do casamento homossexual, desincentivando ao voto no PS, como se tivesse começado na semana passada o fito socialista de destruir os últimos resquícios de Cristianismo nas instituições civis.
Durante anos a CEP assistiu impávida ao afrouxamento dos laços da família nas sucessivas simplificações do Divórcio. A questão, diziam, era a liberdade religiosa. De índole meramente civil, o casamento não tinha de espelhar o sacramento do matrimónio. Sobre a importância dos valores na escolha política nada ouvimos.
Depois veio a questão do Aborto. Pouco preocupados com a inocência das vidas em questão, a CEP mostrou-se favorável a um Estado que dispõe da capacidade, por via referendária, de retirar a alguns o seu bem mais precioso: a vida. Mais uma vez, parecia que a forma socialista de ver o mundo, os seus ideais laicos e republicanos, nada tinham a ver com a legitimação deste crime. Acometida de algum inchaço ou miopia intelectual, a Igreja Portuguesa não identificou no partido de onde partiram todas as acções sérias de legalização de tal prática, quaisquer valores anti-cristãos. Chegou mesmo a afirmar que não se deveria imiscuir em política.
Subitamente, na semana que corre, a CEP fez um achado de relevo: o PS defende valores que não são os do Cristianismo! Desde já endereço um abraço a esse verdadeiro conjunto de sábios que, com um ligeiro atraso de quase 40 anos, descobriram a incompatibilidade entre o materialismo socialista e o Cristianismo. Estranho apenas que a compreensão de tal incompatibilidade surja na sequência da questão do casamento homossexual e não tenha vindo a tempo de salvaguardar a família e a vida de inocentes.
Há muito que alguma Igreja Portuguesa (entenda-se, o clero ligado ao regime e muitos daqueles padrecos laicos que não tiveram coragem de tomar votos) anda a preparar uma estratégia de estalo, que consiste na aceitação das relações homossexuais com um nome diferente para impedir a possibilidade de adopção de casais homossexuais. Uma estratégia espetacular que será desmontada em dois minutos por acto legislativo regular, com votos da esquerda parlamentar e do PSD pró-aborto.
Mas, também, o que é que se pode esperar de gente que demorou quarenta anos a perceber que um Cristão não pode ser socialista ou que acha que a prioridade do país é a economia?

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quarta-feira, janeiro 21, 2009

No Vale das Sombras














O Mundo assistiu ontem à grande missa laica de entronização do seu rei. Não duvido de que muitos se reviram naquela cerimónia confusa de patriotismo, religião e idolatria. Carregando dores de pessoas que não existiram, injustiças históricas que não compreendem, mas que compraram com medo do “universalizável” kantiano, os povos do mundo uniram-se hoje para celebrar um futuro que não conhecem.
Quem percebe a política dos últimos sessenta anos pode perceber o triunfo desta mensagem vazia. Transformados os últimos portadores de uma civilização em consumidores, em meros receptáculos acríticos dos impulsos sensuais veículados pelos meios de comunicação, em servidores do conforto, em seres incapazes de aceitar qualquer norma de conduta que não assente nos seus caprichos mais infantis, chegou a altura de criar um povo mundial. Removem-se as culturas, as crenças profundas e fomenta-se um desejo de ser como o outro e caem finalmente as ordens políticas e as comunidades de sentido sem as quais não há Justiça. Todo o Progresso foi erguido por este desejo de ser o outro, de renegar raízes, e este só se consegue através da criação de um pesadelo de que a igualdade e a liberdade libertam.
Qual é o povo desta Terra que não deposita mais esperanças em Obama do que nos seus próprios governantes? Qual o povo que não preferiria ser uma estrela cosida no “star spangled banner” do que aceitar a escassez que o atormenta? Quantos povos não estão dispostos a esquecerem-se de si para que tenham mais poder, mais dinheiro, mais pão?
O homem vazio é o grande apoiante do Tirano e o cosmopolitismo o seu regime. Ver milhares de africanos nas ruas a celebrar um presidente americano que não conhecem e que defende medidas que serão muito prejudiciais aos países africanos (o capitalismo de Estado significa a estagnação das economias africanas) é apenas um prenúncio sinistro de uma “vontade popular legítima” desligada da realidade e de qualquer obediência racional, movida pelos tribalismos e racismos (a identificação da raça como factor preponderante da identificação individual) que muitos afirmam que acabarão com Obama. Tudo isto é demasiado ridículo, mas continua no sentido do esvaziamento dos conceitos imperativos de que se fazem as comunidades e o seu cimento real, a Justiça até à criação da massa amorfa e da grande máquina (impessoal e utilitária) que a adestra.Quanto mais vazio o homem, mais capacidade tem a máquina de o satisfazer, sugando-lhe assim a vida para a obtenção de finalidades meramente pessoais. O Tirano, ao contrário do que se diz por aí, é perfeitamente consentâneo com as vontades pessoais e da maioria. A diferença entre um Tirano e um Governante Legítimo não tem relação com os desejos da maioria e da minoria, mas com aquele que funda a sua acção numa Construcção Maior. Uma lição dos Antigos que os Modernos irão pagar caro...

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terça-feira, janeiro 13, 2009

Política de Suinicultura











Comunismo e Liberalismo não são apenas duas ideologias modernas, mas um mesmo propósito de sociedade. Qualquer destas formas políticas tem uma escatologia própria mas uma utopia terrena e um desígnio muito semelhante, a criação de uma sociedade que gira em torno de desejos e recursos. Esse tema central de ambas as ideologias corresponde à obsessão generalizada da Modernidade, a ideia de que tudo é expressão de materialidade e que toda a resposta é quantificável, facto que conduziu a que o “Bem” religioso e alter-mundano, fosse traduzido nas religiões seculares da Modernidade por “Mais”, sob o beneplácito de Maquiavel. De um lado os que acreditam que a sociedade, num passe de mágica, pode criar uma sociedade em que todos têm a sua ração, do outro os que acreditam que das várias interacções humanas emerge uma distribuição melhor da mesma ração. Duas religiões com obsessões quantitativas e apetitivas.
É também por isso (noutros casos apenas por uma vontade servil de se colocar aos pés dos detentores do poder) que o Liberalismo tolera bem o Comunismo. E pela mesma razão ambos observam o Cristianismo como inimigo a ser conquistado e dominado pela vontade dos governantes, como se observa pelo cesaropapismo britânico fundamentado por Locke e pelas nacionalizações religiosas dos comunismos que se verificaram por esse mundo fora. Tanto o Comunismo como o Liberalismo têm perfeita consciência de que só sobrevivem numa sociedade de impulsos e desejos e em que toda a repressão é injustificada. Prazer e Dor, Desejo e Satisfação, são os elementos essenciais dessa sociedade suinizada de resposta a impulsos. Qualquer apelo à Virtude, à medida do Homem que proporciona acesso a bens não quantificáveis e qualitativos, é por isso banido por extra-subjectividade. O epíteto “fascista” deixou o significado original de movimento político de massas, para se dizer daquele que não acredita que o indivíduo-átomo é o destinatário final de toda a política. Qualquer pessoa que se recuse a aceitar que os laços humanos são mais importantes que uma individualidade possessiva, que não tem outra finalidade que não seja a total plasticidade do Homem para obter uma total submissão ao poder e ao tempo, quebra a grande premissa de Comunismo e Liberalismo: que devemos todos estar juntos (comunismo) ou separados (liberalismo) para que possamos no fim caber nessa orgia de auto-satisfação do ponto-ómega do Progresso ou da sociedade em que cada um vê satisfeitas as suas necessidades.
É frequente ver-se por aí muita gente da “direitinha” e dos que, espertos, fazem pela vidinha, dizer como o ideal comunista é bonito, mas impraticável. Todo o porco sonha com a pocilga...
Também sou o “fascista” dessa rapaziada.

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terça-feira, novembro 18, 2008

Um Crime de Ódio

Ao passar pela Praça de Espanha, avistei um cartaz que ostentava "O Governo protege os banqueiros. E quem protege as pessoas?". Uma frase muito elucidativa e que traz, juntamente com a desumanização dos banqueiros (o que se diria de uma frase semelhante que substituisse os "banqueiros" por os "judeus", "imigrantes" ou "homossexuais"), o velho discurso do ódio genocida que é timbre da extrema-esquerda à campanha política portuguesa.
É bastante claro que a utilização de uma oposição "pessoas-banqueiros" prefigura uma acção de intenções discriminatórias gravosas. É por isso imperativo exigir a retirada deste cartaz que possui matéria que viola todas as directivas europeias e leis portuguesas sobre não-discriminação.
Aguardamos a acção do vereador Sá Fernandes.

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terça-feira, outubro 14, 2008

O Novo Socialismo de Sacristia









Em Portugal existe um novo partido político. Sem ideias novas, inteligência e sobretudo sem nada dizer, nasce um projecto político que nada traz de novo. Para além de um conjunto de solidários profissionais e de muita gente que vai à missa, este novo Movimento Esperança Portugal não é sequer algo com que valha a pena perder muito tempo, tal é a banalidade da sua proposta que em nada se distingue da falta de imaginação de um PSD ou PS.
A coisa é tão original que inclui como preocupações fundamentais o combate pela Igualdade de Oportunidades (sem explicitar se vamos ter educação igual e o fim dos colégios privados), a determinação de erradicar a Pobreza (esquecendo a pobreza de espírito de muitos dirigentes da coisa) e a promessa de “riqueza para todos” (esquecendo-se de explicitar como é que se vai conseguir distribuir a riqueza e continuar a produzi-la).
É evidente que esta tentativa de transformar o país à luz de um microcosmos sociológico e dos slogans banais de alguns ignorantes tem um objectivo. Debaixo de todo este lixo de banalidades, esconde-se a vontade de alguns figurões passarem à ribalta política depois de lhe roubarem o poleiro. Daí termos como grande elemento justificativo da existência do partido grandes progressos civilizacionais como a “construção de pontes”, a “unidade na diversidade” e o “combate à info-exclusão”, que se inscrevem tanto no léxico da esquerda, como na própria tradição guterrista de governo.
No meio do programa são deixadas cair algumas frases que demonstram o verdadeiro sentido anti-Cristão deste movimento de sacristia. “O Ser Humano enquanto medida de todas as coisas” é uma frase que vai buscar o pior do humanismo secularizado. A isto se junta a ideia ainda mais oposta ao Cristianismo (porque Socialista) de que o Bem Comum é o preencher o Homem com bens materiais (a pobreza, em vez de ser uma consequência da ordem das coisas e das transferências voluntárias de propriedade, é vista como um atentado à dignidade humana, o que vai contra quase vinte séculos de Doutrina da Igreja). O mesmo se dirá da defesa da Declaração Universal dos Direitos Humanos como elemento essencial doutrinário do MEP, o que, ao defender a origem humana do poder político vai contra a Filosofia Política Cristã e demonstra como o humanismo secular é a verdadeira fonte de inspiração do movimento. E não é por vir da sacristia que o lixo intelectual se transforma em ouro…

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terça-feira, setembro 23, 2008

O Novo Estado Total





















Mesmo para alguém que não é fascinado pelos mercados e pelo papel providencial dos actores privados na sociedade e na política, não deixa de ser assustadora a ofensiva estatista dos últimos dias. A presente crise económica internacional é apresentada como desculpa para todos os devaneios estatolátricos, todos os sonhos de centralização progressiva da economia e todos os que crêem que sonham com a ordenação totalitária da vida das pessoas sob a grande justificação do bem-estar individual.

É evidente que a presente crise é um resultado da péssima acção do Estado, que tem permitido que a vida económica das populações se jogue na sorte de investimentos de elevado risco e bastante desligado da sua capacidade de criar riqueza real. O Estado errou, claramente, por omissão, ao permitir que os bancos jogassem o dinheiro que lhes foi confiado, quase sem reservas, em autênticos jogos de azar.

O problema não está, como é fácil de ver, na existência de entidades privadas, mas na possibilidade que é dada aos privados de utilizar indiscriminadamente dinheiro que foi confiado a essas entidades privadas com expectativas bem diferentes. Se os clientes dos bancos soubessem que o seu depósito mensal iria ser jogado em negócios com risco superior à roleta iriam eles mesmos ao Estoril aproveitar as bebidas gratuitas.

O problema é que se tem vindo a acentuar a ideia de que este erro do Estado, a sua inoperância perante a especulação mais abjecta (quem já ouviu falar das pirâmides e círculos de dinheiro enquanto forma de enriquecimento pode perceber bem do que se está a falar), deve ser contrabalançada através do Estado, essa instituição à prova de falência. Pensões e poupanças, investimentos, tudo o que teria o selo estatal seria inexpugnável.

A ideia é humorística. Toda a gente percebe que no caso dos investimentos do Estado não correrem bem, quem irá pagar a factura será o contribuinte. E diga-se em abono da verdade que apostar nos nossos governantes para escolherem os investimentos que nos garantirão a velhice é uma irracionalidade a toda a prova. Esta ideia de que o Estado pode garantir o futuro da população, mesmo que esta nada produza, remete-nos para os devaneios esotérico-materialistas do velho amigo de Engels.
No fim de tudo e se o contribuinte não conseguir pagar os maus investimentos do Estado, haverá lugar a uma penhora do país, para que os que contribuiram possam receber aquilo que esperam.

Esta ideia de que o Estado pode resolver todos os problemas é só mais uma das mentiras que vamos ouvindo todos os dias repetidas e que vão passando por verdades. Mas o que é feito dos nossos liberais que deveriam estar a defender a liberdade económica, mesmo quando esta se traduz em menor bem-estar material? Ah, estão no PSD a dizer que o liberalismo vai trazer riqueza para o país! A pensar no dia de ontem, portanto...

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quarta-feira, setembro 17, 2008

Os Culpados do Divórcio














Esta ideia do Divórcio sem culpa é muito divertida. As obrigações de um casamento passam a estar condicionadas pela vontade dos indivíduos em fazê-las prevalecer. O casamento passa assim a ser um contrato em que os contratantes se encontram vinculados apenas enquanto assim o desejam. Se os cônjuges decidem violar o contrato, basta-lhes, a qualquer momento, denunciar o contrato, regressando assim a um momento de liberdade. Já não há contrato de casamento... é mais um Protocolo!
Anda muita gente chocada com a coisa. O PSD e o CDS criticam esta nova forma de articular juridicamente a sociedade, esquecendo que o mesmo princípio de liberdade já existe em relação a obrigações igualmente importantes. Com a sanção dos referidos partidos, não existe nenhuma pena para um progenitor que abandone os filhos e resolva fazer com que o Estado os tenha de educar. Quem dá os filhos à adopção não tem de dar justificação à comunidade. O pobre que dá os filhos à adopção por não os poder educar ou o rico que acha que os filhos são um empecilho, são iguais perante a lei. O igualitarismo levado aos píncaros da injustiça.
Cá estaremos, Deus permita, para ver a forma como o PSD irá fazer retroceder o mesmo princípio, quando for governo, e acabar com o Aborto pago pelo contribuinte. Irá certamente acabar também com o aborto segundo os desejos da mulher e injustificado.
Mas o que realmente me dá vontade de rir é o voto de Matilde Sousa Franco, que continua a achar que o Estado Social é o essencial e o Aborto, a Família, os Deveres que todos os seres humanos têm para com os seus, são o acessório. A Sra. Deputada mantém-se convencida de que o Socialismo é uma ideia inocente e bem intencionada de redistribuição social de riqueza, mesmo enquanto o PS destrói todos os elementos civilizacionais essenciais do Cristianismo. Vota contra, ignorando ser esta uma das decisões mais viscerais dos seus companheiros de bancada, apostados na criação de uma sociedade realmente “livre”, onde uma pessoa só é pai, filho ou marido na medida dos seus desejos.
Há quem lhe chame Catolicismo Progressista. Eu chamo-lhe apenas confusão.

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sexta-feira, setembro 12, 2008

Abril é Holocausto!














No dia 13 de Abril o Prof. António Barreto publicou um artigo sobre o livro de Américo Cardoso Botelho “Holocausto em Angola”. O livro descreve aquilo que já se sabe. Dos tribunais populares em que se linchava às dezenas, a prisões e torturas de anos a sujeitos sem culpa formada, a estádios de futebol cheios onde, ao bom estilo talibã, se julgavam e executavam a tiro os traidores, perante a passividade das autoridades abrilinas e dos mandantes locais.
Os crimes cometidos nos Balcãs são ninharias, quando comparados com esta história de sucesso. Porém, ao invés de responderem pelos seus crimes, os responsáveis por estes passeiam-se impunemente entre nós, são convidados para organizações internacionais (relembre-se que o MPLA tem estatuto de observador na Internacional Socialista) e são congratulados pela contínua manutenção do Poder.
Reproduzo aqui integralmente o texto do Prof. António Barreto (os negritos são meus), endereçando-lhe os maiores parabéns pela coragem com que se lança a todos, o Regime inteiro, os que pactuaram com esta situação. Só peca por tardio...

“Angola é Nossa!” António Barreto – Público

Só hoje me chegou às mãos um livro editado em 2007, Holocausto em Angola, da autoria de Américo Cardoso Botelho (Edições Vega). O subtítulo diz: 'Memórias de entre o cárcere e o cemitério'. O livro é surpreendente. Chocante. Para mim, foi. E creio que o será para toda a gente, mesmo os que 'já sabiam'. Só o não será para os que sempre souberam tudo. O autor foi funcionário da Diamang, tendo chegado a Angola a 9 de Novembro de 1975, dois dias antes da proclamação da independência pelo MPLA. Passou três anos na cadeia, entre 1977 e 1980. Nunca foi julgado ou condenado. Aproveitou o papel dos maços de tabaco para tomar notas e escrever as memórias, que agora edita. Não é um livro de história, nem de análise política. É um testemunho. Ele viu tudo, soube de tudo. O que ali se lê é repugnante. Os assassínios, as prisões e a tortura que se praticaram até à independência, com a conivência, a cumplicidade, a ajuda e o incitamento das autoridades portuguesas. E os massacres, as torturas, as exacções e os assassinatos que se cometeram após a independência e que antecederam a guerra civil que viria a durar mais de vinte anos, fazendo centenas de milhares de mortos. O livro, de extensas 600 páginas, não pode ser resumido. Mas sobre ele algo se pode dizer.


O horror em Angola começou ainda durante a presença portuguesa. Em 1975, meses antes da independência, já se faziam 'julgamentos populares', perante a passividade das autoridades. Num caso relatado pelo autor, eram milhares os espectadores reunidos num estádio de futebol. Sete pessoas foram acusadas de crimes e traições, sumariamente julgadas, condenadas e executadas a tiro diante de toda a gente. As forças militares portuguesas e os serviços de ordem e segurança estavam ausentes. Ou presentes como espectadores.A impotência ou a passividade cúmplice são uma coisa. A acção deliberada, outra. O que fizeram as autoridades portuguesas durante a transição foi crime de traição e crime contra a humanidade. O livro revela os actos do Alto-Comissário Almirante Rosa Coutinho, o modo como serviu o MPLA, tudo fez para derrotar os outros movimentos e se aliou explicitamente ao PCP, à União Soviética e a Cuba. Terá sido mesmo um dos autores dos planos de intervenção, em Angola, de dezenas de milhares de militares cubanos e de quantidades imensas de armamento soviético. O livro publica, em fac simile, uma carta do Alto-Comissário (em papel timbrado do antigo gabinete do Governador-geral) dirigida, em Dezembro de 1974, ao então Presidente do MPLA, Agostinho Neto, futuro presidente da República. Diz ele: 'Após a última reunião secreta que tivemos com os camaradas do PCP, resolvemos aconselhar-vos a dar execução imediata à segunda fase do plano. Não dizia Fanon que o complexo de inferioridade só se vence matando o colonizador? Camarada Agostinho Neto, dá, por isso, instruções secretas aos militantes do MPLA para aterrorizarem por todos os meios os brancos, matando, pilhando e incendiando, a fim de provocar a sua debandada de Angola. Sede cruéis sobretudo com as crianças, as mulheres e os velhos para desanimar os mais corajosos. Tão arreigados estão à terra esses cães exploradores brancos que só o terror os fará fugir. A FNLA e a UNITA deixarão assim de contar com o apoio dos brancos, de seus capitais e da sua experiência militar. Desenraízem-nos de tal maneira que com a queda dos brancos se arruíne toda a estrutura capitalista e se possa instaurar a nova sociedade socialista ou pelo menos se dificulte a reconstrução daquela'.
Estes gestos das autoridades portuguesas deixaram semente. Anos depois, aquando dos golpes e contragolpes de 27 de Maio de 1977 (em que foram assassinados e executados sem julgamento milhares de pessoas, entre os quais os mais conhecidos Nito Alves e a portuguesa e comunista Sita Valles), alguns portugueses encontravam-se ameaçados. Um deles era Manuel Ennes Ferreira, economista e professor. Tendo-lhe sido assegurada, pelas autoridades portuguesas, a protecção de que tanto necessitava, dirigiu-se à Embaixada de Portugal em Luanda. Aqui, foi informado de que o vice-cônsul tinha acabado de falar com o Ministro dos Negócios Estrangeiros. Estaria assim garantido um contacto com o Presidente da República. Tudo parecia em ordem. Pouco depois, foi conduzido de carro à Presidência da República, de onde transitou directamente para a cadeia, na qual foi interrogado e torturado vezes sem fim. Américo Botelho conheceu-o na prisão e viu o estado em que se encontrava cada vez que era interrogado.

Muitos dos responsáveis pelos interrogatórios, pela tortura e pelos massacres angolanos foram, por sua vez, torturados e assassinados. Muitos outros estão hoje vivos e ocupam cargos importantes. Os seus nomes aparecem frequentemente citados, tanto lá como cá. Eles são políticos democráticos aceites pela comunidade internacional. Gestores de grandes empresas com investimentos crescentes em Portugal. Escritores e intelectuais que se passeiam no Chiado e recebem prémios de consagração pelos seus contributos para a cultura lusófona. Este livro é, em certo sentido, desmoralizador. Confirma o que se sabia: que a esquerda perdoa o terror, desde que cometido em seu nome. Que a esquerda é capaz de tudo, da tortura e do assassinato, desde que ao serviço do seu poder. Que a direita perdoa tudo, desde que ganhe alguma coisa com isso. Que a direita esquece tudo, desde que os negócios floresçam. A esquerda e a direita portuguesas têm, em Angola, o seu retrato. Os portugueses, banqueiros e comerciantes, ministros e gestores, comunistas e democratas, correm hoje a Angola, onde aliás se cruzam com a melhor sociedade americana, chinesa ou francesa.

Para os portugueses, para a esquerda e para a direita, Angola sempre foi especial. Para os que dela aproveitaram e para os que lá julgavam ser possível a sociedade sem classes e os amanhãs que cantam.Para os que lá estiveram, para os que esperavam lá ir, para os que querem lá fazer negócios e para os que imaginam que lá seja possível salvar a alma e a humanidade. Hoje, afirmado o poder em Angola e garantida a extracção de petróleo e o comércio de tudo, dos diamantes às obras públicas, todos, esquerdas e direitas, militantes e exploradores, retomaram os seus amores por Angola e preparam-se para abrir novas vias e grandes futuros. Angola é nossa! E nós? Somos de quem?

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segunda-feira, julho 21, 2008

Cu de Judas

A paródia que tem sido ver a comunidade cigana da Quinta da Fonte a reclamar por habitações paga com o dinheiro dos contribuintes é uma bonita demonstração dos resultados do Estado Social e do socialismo. Gente que não apresenta rendimentos, deve muitos meses de renda e tem viaturas e bens, armas e sei lá mais o quê, apresenta ao Estado a reivindicação de uma habitação que mais lhe convenha, longe de vizinhos indesejados a expensas do contribuinte.

Não sei o que se diria de populações que pedissem para ficar longe da comunidade cigana, mesmo depois de se ter visto que a dita se encontra pronta para fazer uma “Intifada” em qualquer bairro deste país. A certeza de que deve ser a comunidade a dar aos ciganos uma nova habitação, em vez de estes adqurirem uma com os seus rendimentos ou voltarem à vida nos típicos acampamentos, mostra que não há fim para o problema social. Quando todos têm casas, ou se importam mais comunidades ou se aceitam como legítimos anseios reclamações que nada são senão desculpas para se manter o sistema de financiamento à construção e o sistema clientelar de voto.

Qualquer apelo ao Estado Social é, neste momento, uma forma de pactuar com esta vergonha...

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quinta-feira, julho 03, 2008

É Subjectivo

Esperei dois dias. Nem uma palavra vi escrita sobre o assunto. Esperei as gargalhadas histéricas do público ou um “sketch” humorístico. Em vão. A linguagem política degradou-se de tal forma e a mentira tornou-se tão frequente em “politiquês” que o população, os jornais e os opositores políticos já nem dão por ela.
Nas “Notas Soltas” desta semana, em jeito de conclusão, António Vitorino brindou o povo português com o que de pior têm os políticos deste tempo. Quando Judite Sousa o questionou sobre como irá ser a vida dos portugueses com o barril de petróleo a 200 USD, António Vitorino excusou-se a responder. Perante a insistência da jornalista e a afirmação desta de que a vida iria piorar para os portugueses com tal evento, Vitorino respondeu “não vai ser pior, vai ser diferente”.
Prometido o paraíso, este agora é remetido para o domínio da subjectividade. Pagar 50€ por uma refeição numa tasca pode não ser mau para um obeso crónico, assim como pagar 10€ por um bilhete da Carris pode ser bom para os defensores do ambiente ou para quem precise de andar a pé.
Ainda dizem que o português é pessimista....

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terça-feira, julho 01, 2008

Reciclagem














Ando há uns tempos a tentar escrevinhar alguma coisa sobre o fim do comunismo e sobre o elemento essencial deste mundo pós-comunista que reside no “comuna reciclado”. Quase todos os que governam a Europa lá andaram em maior ou menor conluio, durante mais ou menos tempo. Compreender o que é que mudou nas suas mentes e que reformulações dos seus quadros conceptuais sofreram, é o grande trabalho para os sociólogos dos próximos vinte anos.

Peter Hitchens foi mais esperto e foi observar o fenómeno macro, onde o pós-comunista não é uma casta governante, mas uma nação. Conhecedor da realidade soviética, Hitchens traça com mestria o retrato da “wasteland” comunista que propiciou a entrada e predomínio na cultura russa dos mais baixos elementos da cultura ocidental, a massificação e ganância.

Deixo-vos algumas citações, na esperança de que leiam a totalidade do artigo. Para que o povo nunca esqueça...

"Partly thanks to us, partly thanks to the horrible moral consequences of totalitarian socialism and the near extermination of God by systematic commissars, the new Russia is a lawless snake pit. It is dominated and populated by men stripped of morality by more than 70 years of cynical Leninism. But though the new rulers are the products of Marxism, they lack its driving purpose—or any real purpose except the gaining and keeping of wealth and power.
So Moscow, once the sacred heart of world Communism, has become a sort of Babylon, the most exhilarating, tasteless, and expensive city in the world, where you can procure anything for money and the nasty negative charisma of gangsters and spivs is on constant display. I cannot think of any other advanced capital in which you can see, side by side, all the manifestations of modern civilization and the symptoms of anarchy—ostentatious bodyguards, fenced-off compounds."


"And I remembered coming back to the West, full of optimism, in 1992. And then I remembered seeing, year by year, in my own country and the U.S., new versions of all these subtle horrors: the “children’s rights” movement that encourages denunciation and sets children against their parents, the shoving of infants into daycare from an incredibly early age, the need for two salaries to pay the basic bills, the epidemic of divorce, the pandemic of abortion, the growing spiteful rage against faith. I saw all around me the construction of a system of thought that dismissed conservative, individualist points of view as intolerable and pathological. I saw public servants, academics, and broadcasters having their careers ruined—and in Britain being questioned by the police—for expressing incorrect opinions. Private life, in the modern West, is now becoming significantly less free than it is in post-ideological Moscow. "

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sexta-feira, maio 16, 2008

Este ainda chega a PM

Remeto para a leitura deste artigo de António José Seguro. É a todos os títulos notável.
Notável no chavão, porque não consegue ter uma ideia que não seja banal numa reunião de uma concelhia partidária qualquer.
Notável no modo, pela utilização do "português simplex", que caracteriza a geração de políticos que se formou nas "jotas" e não nos estudos e reflexão. Incapaz de utilizar frases complexas, parece que estamos a ler um telegrama. Frases curtas para ideias do mesmo calibre.
Notável, sobretudo, na forma como apresenta soluções inovadoras. Nunca ninguém tinha ouvido falar de exigências éticas, de solução eficaz dos problemas, da importância da proximidade e relação com os eleitores, da utilização de uma linguagem de verdade (mas que verdade, Tozé?), de debate de ideias, de rigor na gestão de dinheiros públicos. Não andamos nós a ouvir outra coisa há anos...
Este homem é um génio. Descobriu que a solução para um problema é continuar a ministrar o medicamento que não funciona...
Dêem lá um lugar ao homem, para que este saber não se perca.

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domingo, abril 27, 2008

Fingir-se de Morto

Noticia a Gazeta que o PR se irá reunir com as juventudes partidárias para falar sobre o afastamento dos jovens da política, esquecendo que essas associações são uma das grandes causas. Anda por aí tudo a dizer que este afastamento é uma grande derrota do 25 do A. Mentira. É o grande triunfo da democracia. Ter uma massa disposta a votar sempre nos mesmos ou a abster-se, que toma como grande razão para desconfiar dos políticos a incapacidade de dar créditos bonificados, subsídios à habitação, é um grande triunfo das elites democráticas.
A legitimidade política encontra-se, desta forma, ao virar da esquina, onde os anseios económicos dos eleitores podem ser satisfeitos. Anteriormente a política apresentava-se em camadas que condicionavam a propostas políticas e a subsequente adesão.
Primeiro, a distinção entre as finalidades da política. Os que buscavam o justo, os que buscavam objectivos, os que buscavam elementos materiais, agregavam-se em propostas políticas.
Em segundo lugar, a adesão política era também uma questão de meios, a melhor maneira de se obter as finalidades políticas.
Em terceiro lugar, o carácter afectivo, a ligação a pessoas, as lealdades concretas, a similitude de temperamento, tinham também um papel importante na adesão política.
Hoje, existe algo que nunca existiu em séculos de governos não democráticos.
Existe na sociedade portuguesa um consenso a que nenhum partido consegue fugir. O importante é criar desenvolvimento e progresso. O elemento material é o único fim da política.
Quanto aos meios, ninguém duvida de que o Estado é o elemento preponderante para a obtenção das finalidades políticas (sendo que os sistemas de valores e a sua veracidade foram amplamente riscadas do mapa em todas as forças políticas, sem excepção).
Por fim, a lealdade política tranformou-se numa relação contratual em que o voto é vendido a quem dá mais, onde anteriormente existia uma relação de "amizade" que transcendia os fins.
Abril e as suas ideias e ideólogos são muito mais inteligentes do que parecem. Triunfaram ao fazer parecer que o seu tempo havia passado.

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terça-feira, abril 01, 2008

Duas Eternas Ditaduras do Proletariado














Muitas vezes o sistema chinês é visto como um exemplo de falso comunismo. Isto é um claro erro de percepção, repetido incessantemente pelos ex-comunistas e reciclados deste país. O marxismo sempre contemplou um elemento de profundo circunstancialismo no período de espera da panaceia da sociedade comunista. Enquanto a solução mágica para todos os problemas da escassez não chega, o Estado e a sua elite dirigente têm a capacidade de dirigir tudo o que respeita à vida dos homens. Esta é precisamente a justificação para a “privatização” chinesa, onde se começa a construir uma economia de mercado, com o objectivo de construir a um “caminho verdadeiro para o socialismo”.

A ligação com o caso português é evidente. No período do PREC instaurou-se em Portugal e sem contemplação legal que não fosse o programa do MFA, um regime semelhante. A Constituição de 76 cavalgou nesse mesmo aparato conceptual. As liberdades, a iniciativa privada, estavam sujeitas a esse desígnio revolucionário a que a estrutura constitucional vigente ainda é o maior tributo (vejam-se as interpretações do Tribunal Constitucional a propósito da gratuitidade do ensino, ou a lata restrição a movimentos políticos que não sejam contra o “imperialismo”).

O marxismo professava uma estrutura histórica por etapas, de que o capitalismo era um apoio para a apoteose comunista. E no entanto nunca tão poucos fizeram tanto pela religião dos mercados como os burgueses Marx (o pendura) e Engels (capitalista tão selvagem como os demais). Ao transformar a norma do “político” numa doação independente do merecimento, Marx conseguiu o que os utilitaristas haviam tentado durante anos: a redução da justiça a uma dotação individual de recursos. É, mais uma vez, difícil não perceber a semelhança e influência do marxismo nos Direitos Humanos como garantia de elementos materiais.

Não há diferença entre a máquina expropriadora chinesa e o progressismo português. A única diferença é que a sociedade chinesa se encontra vencida, numa total ausência de capacidade de pensar o justo, algo que só a fase comunista para o triunfo do capitalismo consegue operar. Veremos por quanto tempo a diferença se manterá.

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sexta-feira, março 28, 2008

O Portugal Vulgarizado









Há tempos, como forma de salvação da minha alma, gravei um daqueles programas de Clara Ferreira Alves e de Mário Soares. Como penitência não foi grande coisa, mas como programa humorístico valeu a pena. Para além dos habituais disparates vazios como “sou de esquerda porque acredito no Homem, na pessoa humana, nos valores, na liberdade e igualdade possível. Não acredito no dinheiro, nem no sucesso... isso são valores menores”, ou da reafirmação do sonho esquerdista “no futuro, no dia de hoje e no de amanhã, sobretudo”, recebemos de Mário Soares uma prova mais que evidente da sua visão simples e boçal da política.
Diz a grande referência da esquerda:

“Estamos num Estado democrático, num Estado de Direito e estamos aqui junto ao Parlamento, que é um dos órgãos mais fundamentais da representação nacional, da democracia portuguesa e do Estado de Direito. Nestes últimos anos, por via do neoliberalismo, temos vindo a assistir progressivamente a muitas pessoas a dizer «é preciso menos estado, nós não queremos Estado, queremos é os privados». (...) Eu não aceito o desaparecimento do Estado, porque é muito bonito dizer menos Estado, temos Estado a mais, vamos para os negócios, vamos ganhar dinheiro... Mas ganhar dinheiro quem? Só uma classe muito privilegiada. (...)”

Sublime aula. Há os que defendem o Estado e depois há outros que defendem menos Estado, que são iguaizinhos aos que dizem que o Estado deveria acabar. Os arqui-inimigos de Soares são, no fim de contas, todos aqueles que querem menos Estado (como ele quando reprivatizou a banca), na sua aliança com os que querem acabar com o Estado. Suspeito que a perigosa ameaça venha dos 0,00001% de portugueses que já tenham lido alguma obra de Rothbard. Perigosa fronda...

Mas o grande momento vem numa visita ao complexo industrial de Sines, em que Soares afirma que o projecto já vinha dos tempos de Marcello Caetano, mas que infelizmente o Presidente do Conselho tinha apenas uma “visão economicista” do mundo. Fiquei triste. Pensava que tinha sido o socialismo a defender a visão economicista do mundo e desconheço qualquer escrito de Marcello Caetano em que este defenda o primado do económico. Dos inúmeros defeitos da figura, creio que esse não conta para a estatística. Para além disso, toda a gente conhece a obra de Caetano, ainda hoje importante na análise jurídico-constitucional. De Mário Soares, auto-proclamado humanista, existe um livro desaparecido sobre Teófilo Braga, o triste Portugal Bailloné e dezenas de livros, entrevistas e reflexões biográficas sobre si próprio.

É a cara desta República.

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quarta-feira, março 05, 2008

Gente das Nossas Relações














Não se percebe a razão pela qual a invasão dos homens de Hugo Chavez ao Arcebispado de Caracas passou despercebida aos media portugueses. Não se percebe, mas é lícito desconfiar que seja a mesma que levou o embaixador português a assegurar que a vitória do "expropriador profissional" no referendo para o tornar ditador vitalício, em nada fazia perigar a classe comerciante portuguesa (expropriável por natureza).
Não gosto de Alvaro Uribe, mas ainda gosto menos de narco-terroristas e dos negócios de Mário Soares quando estes passam por interesse nacional.
Tanto idealismo no Iraque é compatível com o apoio do Terror num estado democrático como é a Colômbia? Fica aqui mais um tema para o próximo "O Caminho Faz-se Caminhando"... Mas acho que a Clara não ia fazer essa desfeita ao senhor.

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