terça-feira, junho 12, 2007

Monopólios da Transcendência

Tem havido uma interessante discussão na blogosfera sobre o problema da Maçonaria e do seu papel na sociedade.
Não sei se é possível acrescentar algo de valor ao que o Je Maintiendrai transcreveu e à estranheza que lhe causa estranheza. Parece-me, contudo, peculiar que a citação que desencadeou a questão venha daqui e não daqui. Tendo tudo para acreditar na boa fé do Professor Maltez, estranho que a nota não venha dirigido a essa Lusitana Antiga Liberdade, que os Integralistas (com “neo” ou sem) não sejam os destinatários do texto. Uma transcrição vale tanto como outra. Neste caso, até mais.

Relembra o Professor Maltez que a Religião, a Política e a Moral são esferas diferentes. É bem verdade. Mas ou são fruto de um mesmo Real, ou podemos bem entregar a alma ao mundo...
Os que o fazem estão bastante descansados nesse aspecto. Sabem perfeitamente que são os seus desejos a condicionar o simulacro de transcendente, que o Deus Incognoscível é apenas um caminho para a arbitrariedade dos seus valores, inferidos de uma divindade menor, um ídolo à nossa imagem. Essa incognoscibilidade do divino é a suprema amputação do Mundo e elemento que permite que, sem mais, a Democracia ( tomá-la como mais do que bom governo é ideologia) e Liberdade (que não vêm do Syllabus, mas de Cristo) na mente de alguns se torne referencial e medida de todas as coisas. Essa arbitrariedade é contrária a tudo o que é humano, porque é um sistema auto-induzido e circular, onde não há possibilidade da verdadeira Liberdade que provém da Verdade e da possibilidade de a partilhar e compreender.
O hermetismo e o "círculo" são os disfarces do mal, como tão bem viu o monstro Chesterton...

É essa mesma ideia de que vivemos numa sociedade livre que conduz o ataque, mascarado de defesa da Liberdade da Igreja. Em 1975 defendeu-se a Igreja, desde que esta aceitasse a derrota, desde que esta se considerasse uma associação cívica, determinando que toda a sua acção seria limitada pelo político. Falava-se em permitir a "liberdade" e evitar a "teocracia", que era boçalmente descrita como a sociedade com finalidades cristãs. Deixar a Igreja andar na rua, desde que silenciada pelo Poder, renegando a realeza de Cristo. Ou seja, indisfarçadamente, postula-se a mesma tolerância que Locke propunha para os Católicos. Nenhuma, evidentemente, porque no momento em que o Católico acha que a Fé é matéria privada, assim como a Verdade e a Justiça (que comandam a Liberdade), dá um passo decisivo para ser outra coisa qualquer. Tolerância sim, mas só para os que se encontram prostrados perante o político, que têm uma lógica própria, separada do Bem da religião e da moral. É por isso que Voegelin descreveu bem que o paraíso de Arendt é tão totalitário como os "campos" do Leste! É por isso que Burke descreveu o Mal encarnado pela Revolução Francesa (e não apenas pelo seu Terror!), como oposto à Humanidade, tendo todo o homem o dever de lhe levar a Guerra, como é bem patente nas "Letters on a Regicide Peace".
Nem a Liberdade, nem Portugal, nasceram no século XIX... E quando só se admite a Igreja rendida e submissa, está-se a fazer a apologia da supremacia da endogenia do político! Se o político e o moral têm esferas diferentes e são parcialidades diferentes (o político não visa impor a moralidade, mas apenas aquela necessária para os seus fins), afirmar a independência de uns e outros é aceitar as leis de extermínio ou o homicídio dos "inimigos do povo", segundo uma regra de separação doente.
Ainda hoje pagamos a rendição, que devia ter sido resistência, como no Bloco de Leste.

Se é verdade que "sob o Sol" ninguém tem o monopólio do transcendente, é verdade que isto significa apenas que não tem o poder de o mandar e desmandar, de o negar segundo a sua vontade, para comandar obediência!

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