quarta-feira, novembro 25, 2009

Imprimir, Ler, Guardar.

John Milbank, "Paul Against Biopolitics".

Sobre os paradoxos da Modernidade e com algumas palavras para a conciliação do inconciliável.

terça-feira, novembro 24, 2009

Duas Direitas















O Miguel Castelo Branco dirigiu um texto a todos aqueles que se revêem na Direita e que lança alguns tópicos interessantes sobre o lugar da tradição e do conservadorismo portugueses no presente diálogo político europeu.
Não me interessa muito discutir epítetos ou rótulos e por isso abster-me-ei de discutir responsabilidades históricas no que respeita a tudo o que aconteceu em Portugal nos últimos dois séculos.
A primeira coisa que salta à vista no texto do Miguel é que aquilo com que este se insurge. O problema da Direita, segundo o Miguel, é que se encontra fora do debate político presente, estando por isso frustrada nas suas capacidades e impedida de dar o seu contributo na preservação da sociedade. O ponto é interessante, recorrente e uma das consequências mais evidentes da inversão maquiavélica no pensamento político. A primazia da acção acima das finalidades é uma das marcas de certa direita. Curiosamente, esta é a marca essencial das direitas que tiveram hipótese de governar Portugal e que o fizeram, com sacrifício de tudo aquilo a que apelavam. A estratégia frequente foi a do conservadorismo social, a manutenção das estruturas e elites do status quo através da ameaça da “direita moralona”, do “tempo da outra senhora”, ainda que para isso, para “parecer moderno”, se assinasse de cruz todas as propostas, mesmo as mais disparatadas, do progressismo. Essa Direita, a da manutenção dos privilégios independentemente do regime, representa aquilo que é mais perigoso na nossa sociedade. As verdades em surdina, o esquema, o desconhecimento de quaisquer finalidades que não a satisfação grupal e de casta, disfarçadas de progressismo...
Ao contrário do que se pode ler no texto do MCB, foi essa Direita, bem acolitada pela Igreja Portuguesa assim que teve lugar à mesa do banquete, que deixou cair as grandes questões (a matriz civilizacional de Portugal, o seu carácter universal e finalidades cristãs) e se concentrou nas pequenas. Na impossibilidade da manutenção das finalidades cristãs dentro do paradigma liberal, concentrou-se na manutenção de estruturas sociais herdadas do período cristão.
É evidente que isto é um erro, mas foi precisamente por ter assumido a posição do Miguel e não a inversa. Ao tomar a inserção política como elemento essencial, a Direita cá do burgo desprezou tudo o que sustentava a sua luta. E por isso em Portugal há uma direita para cada paladar. Os negócios, os valores desnatados, o pró-americanismo mais subserviente, o patriotismo mais difuso ou confuso, tudo acaba por caber nessa caixa desprovida de rótulo ou critério de inclusão.
Se só uma sociedade que tem a capacidade de mudar, tem a possibilidade de se conservar, como afirmou Burke, o dever da Direita, dos conservadores ou daqueles que vêem na tradição a forma de compreender o seu lugar no mundo é compreender o que salvar. Toda a mudança ou caminha nesse sentido, ou vai no sentido inverso. Afirmar que se deve ser a favor do que se pretende combater (a eliminação dos obstáculos à vontade individual, a redução da escolha ao carácter privado da mesma, a luta para que tudo tenha o mesmo valor moral ou que este coincida com as conveniências da política da época) com o mero propósito de se inserir na decisão presente sobre a sociedade é o mesmo que afirmar que é mais importante falar do que aquilo que se pretende dizer. Esse é o erro estrutural dos conservadores portugueses e de muitos por essa Europa fora que, ansiosos por serem figuras de proa na sociedade, se transformaram em meros veículos da vontade popular. Para isso já lá estão os outros...

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sábado, novembro 21, 2009

Tomar Partido

Jorge Ferreira

terça-feira, novembro 17, 2009

More e o Estado de Ideais
















Ao Afonso

Muito do que se escreve actualmente sobre São Tomás Moro é uma fábula de pouca importância para compreender o que o Santo defendeu na
realidade. O problema está, como de costume, nas dicotomias. Os que acham que a acção de More foi ditada por uma afirmação da liberdade de consciência, com as consequências secularistas e individualistas que a mesma implica, perante a “Razão de Estado”, enganam-se (apoiados num disparatado imperativo categórico). Quando fora Lord Chancellor, More distinguiu-se no combate legal à heresia e na conversão dos heréticos, submetendo à consciência dos próprios a possibilidade de renegarem as proposições contra a Fé que os tinham colocado nessa situação, evitando assim as medidas mais extremas.
Em suma, só aquele que crê que só existem dois posicionamentos na vida (a liberdade do homem no deserto ou a servidão gregária e animalesca), pode fingir que o conflito de More contra Henrique VIII seria uma defesa do direito humano à sedição e não uma defesa de que o Estado esteja limitado pela Fé que o transcende e sem a qual toda a obediência se transforma em incompreensibilidade. É contra a sedição do Rei face àquilo que lhe permite ser um governante justo, que More se insurge através da recusa do Acto de Sucessão.


À luz de tudo isto é difícil compreender o lugar da Utopia de More na narrativa da vida do santo. A obra contém a apologia de muitas das doenças do mundo moderno (divórcio, comunismo, centralização estatal, eutanásia, uma concepção de que o homem pode distinguir automaticamente o certo do errado) como solução para a preservação da modéstia, da caridade e da paz. Infelizmente, estes elementos do Cristianismo são tomados (como lembra Voegelin na História das Ideias Políticas) como ideais ou valores, algo desligado da estrutura da realidade e um resultado da aceitação de um conflito entre Fé e Razão. A forma como More constrói a sua Utopia mostra como a transformação da fé em matéria privada seria uma solução para a obtenção do supremo valor da paz social. Ainda que não pretenda a eliminação do pecado ou a criação de uma nova natureza, a aceitação de um Estado que não replica a alma humana e a sua virtude (defendendo apenas um estado de coisas propício à paz social e a uma vida de respeito entre os seus membros) gera a situação condenada pela Igreja durante séculos de uma comunidade sem justiça, ou com uma justiça que não reflecte a transcendência.
Espero que a fraqueza da Utopia tenha sido suplantada pelo relutante martírio.

segunda-feira, novembro 09, 2009

Autenticidade Republicana e a Cruz Quebrada

Como já aqui escrevi há tempos, sou absolutamente a favor da eliminação de símbolos religiosos nos serviços públicos. A razão para isso é muito simples: nas nossas escolas e serviços públicos a Cruz só pode ser vista como um elemento cultural, um elemento de formação de uma identidade política. No fundo, é como se se apresentasse uma cruz pela metade, desprovida do seu carácter salvífico. Este carácter desvirtua a função da Santa Cruz e transporta-a para domínios em que esta pode ser discutida sem referência ao seu carácter transcendente. É precisamente aí que os inimigos da Fé a querem colocar, usando-a como forma de, por um lado, a colocar a par com outras formulações culturais, por outro, pacificar aqueles católicos que acham que o catolicismo pode ser esquartejado na área política, ou que a justiça nada tem a ver com a religião.
Há símbolos que as actuais repúblicas europeias, secularistas e maçónicas, não têm dignidade para usar.
Infelizmente, para alguns católicos, a cruz na repartição ou na sala de aula é mais importante que a salvação das almas, do que o incentivo público a práticas profundamente erradas.